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Uma vida à espera de começar

O paradoxo é evidente: exige-se aos jovens que sejam responsáveis, autónomos e capazes de construir o seu futuro, mas não lhes são proporcionadas condições materiais para o fazer. 

Créditos Miguel A. Lopes / Agência Lusa

Nas últimas semanas, a atualidade tem sido marcada pelas manifestações realizadas na Praça do Rossio, em Lisboa, e na Praça D. João I, no Porto, para além de outras cidades, tendo como tema central o direito a um projeto de vida. Nestas manifestações, tem sido visível a presença predominante de jovens. Coloca-se, assim, uma pergunta que merece ser feita a toda a sociedade: como pode uma geração construir o seu projeto de vida quando as condições essenciais para o concretizar se tornam cada vez mais difíceis de alcançar?

Ter emprego, conquistar autonomia, encontrar uma casa, constituir família e participar plenamente na sociedade são objetivos tradicionalmente associados à vida adulta. Nunca foram fáceis nem estiveram ao alcance de todos, mas existia a expectativa de que o trabalho, o esforço e a poupança permitiriam alcançar, progressivamente, uma vida estável. Hoje, para muitos jovens portugueses, essa expectativa está profundamente comprometida.

A habitação constitui uma das maiores barreiras à autonomia. Os preços de compra de casa, as rendas proibitivas e a dificuldade em reunir as poupanças necessárias para a entrada inicial num crédito à habitação afastam muitos jovens da possibilidade de adquirir casa própria ou de arrendar uma habitação a um preço suportável.

O paradoxo é evidente: exige-se aos jovens que sejam responsáveis, autónomos e capazes de construir o seu futuro, mas não lhes são proporcionadas condições materiais para o fazer. Trabalham, mas não conseguem poupar; poupam, mas não conseguem comprar casa; procuram independência, mas deparam-se com despesas que absorvem uma parte excessiva dos seus rendimentos.

Hoje, os jovens beneficiam de melhores oportunidades educativas, de maior liberdade individual e de avanços tecnológicos e sociais que as gerações anteriores não conheceram. Porém, enfrentam também o desfasamento entre os rendimentos e o custo de vida, a instabilidade de alguns percursos profissionais e a concentração de oportunidades em territórios onde viver é particularmente caro.

«Existia a expectativa de que o trabalho, o esforço e a poupança permitiriam alcançar, progressivamente, uma vida estável. Hoje, para muitos jovens portugueses, essa expectativa está profundamente comprometida.»

A questão fundamental não é saber qual das gerações sofreu mais (conforme, de forma absurda o Presidente do IHRU sugeriu), mas perceber se o trabalho, a qualificação e o esforço individual continuam a ser suficientes para alcançar uma vida autónoma. Para muitos jovens, já não são.

A dificuldade em aceder à habitação condiciona decisões fundamentais. Adiam-se a saída de casa dos pais, a constituição de família, a decisão de ter filhos e, por vezes, a mudança de emprego. A dependência prolongada da família deixa, muitas vezes, de ser uma opção de conforto para se transformar numa necessidade económica. Esta realidade contribui também para acentuar as desigualdades, uma vez que os jovens que beneficiam de apoio familiar dispõem de condições diferentes daqueles que dependem exclusivamente dos seus próprios rendimentos.

O custo da alimentação, dos transportes, da energia e dos restantes serviços essenciais pesa nos orçamentos familiares. Mesmo quando existe emprego, o rendimento disponível pode não permitir acumular poupanças, fazer face a despesas inesperadas ou preparar a compra de uma casa. A incerteza quanto ao futuro profissional agrava esta situação.

Esta realidade interpela a sociedade e os responsáveis pelas políticas públicas. Não basta reconhecer as dificuldades: é necessário atuar sobre as suas causas. O acesso à habitação exige uma política consistente que combine a construção de habitação a preços acessíveis, a mobilização do património devoluto, a reabilitação urbana, o fim do «assalto» dos fundos imobiliários, a regulação das rendas e a criação de respostas adequadas às necessidades dos diferentes territórios.

É igualmente necessário promover emprego qualificado e socialmente valorizado, melhorar a relação entre os salários e o custo de vida, facilitar a mobilidade profissional, assegurar transportes públicos adequados e criar condições para conciliar a vida profissional com a vida pessoal e familiar.

O problema é estrutural e não pode ser resolvido apenas com incentivos pontuais ou apoios temporários. Exige continuidade, coordenação entre políticas públicas e uma ação governativa orientada para responder às necessidades do presente e salvaguardar o futuro dos portugueses.

Uma sociedade desenvolvida não se mede apenas pela dimensão da sua economia ou pela capacidade de atrair investimento. Mede-se também pela possibilidade de um jovem, depois de estudar e começar a trabalhar, conseguir estabelecer-se, constituir família, se assim o desejar, e participar na comunidade sem ficar permanentemente condicionado pela falta de recursos.

Uma geração que não consegue transformar o seu esforço num projeto de vida corre o risco de perder a confiança no futuro. E um país que pede aos seus jovens que estudem, trabalhem, sejam responsáveis e contribuam para a sociedade tem de estar preparado para lhes proporcionar condições para o fazerem.

O futuro não pode ser apenas aquilo que os jovens esperam alcançar um dia. Tem de ser algo que possam começar a construir hoje.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) 

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