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O cinema africano e a ilustração

«Sarah Maldoror: Cinema Tricontinental» na Cordoaria Nacional, a Festa da Ilustração em Setúbal e a exposição «Vim de lá – Colagens de Memórias» de Paula Delecave no Centro Cultural Malaposta.

«Sarah Maldoror: Cinema Tricontinental» é uma exposição retrospetiva da realizadora francesa e figura de destaque no cinema africano, agora no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional[fn]Torreão Nascente da Cordoaria Nacional – Avenida da Índia, 1300-299 Lisboa. Horário: terça a domingo: 10h-13h e 14h-18h.[/fn], em Lisboa, até 27 de novembro. A exposição tem como curador François Piron e, além das obras de Sarah Maldoror[fn]A cineasta Sarah Maldoror (1929-2020) nasceu em Gers, em 1929, e «emerge na cena cultural parisiense em meados da década de 1950, utilizando já o nome adotado de Maldoror em alusão ao herói maléfico dos Cantos de Maldoror (1868), do Conde de Lautréamont, redescobertos e celebrados pelos poetas surrealistas e nos quais Aimé Césaire encontrava “o homem de ferro forjado pela sociedade capitalista” (in Discurso sobre o Colonialismo, 1950)», como se apresenta no texto da exposição. Na cena intelectual e artística de Paris dos anos 50 co-fundou a primeira companhia de teatro negro em França: Les Griots. O seu encontro em Paris com o poeta e ativista político Mário Pinto de Andrade, que se tornará um companheiro de vida, levá-la-á à Guiné, onde surge o seu desejo de trabalhar com cinema, bem como a oportunidade de estudar cinema em Moscovo. Durante os anos 60, Maldoror e a sua família estabeleceram-se em Argel, a capital panafricana da época, onde colaborou com os cineastas Gillo Pontecorvo (The Battle of Algiers), Ahmed Lallem (Elles) e William Klein (Panafrican festival), antes de poder lançar a sua primeira curta-metragem, Monangambeee, em 1969, com uma partitura do Art Ensemble of Chicago.[/fn], apresenta também peças de Maya Mihindou, Chloé Quenum e Anna Tje, desafiadas a dialogar e criar a partir do trabalho de Maldoror. A exposição apresenta diversos retratos de artistas e poetas negros e de mulheres negras em França e uma instalação que reúne excertos de alguns dos mais de 45 filmes que realizou, assim como documentos, pinturas, fotografias e esculturas.

A obra de Sarah, bastante referenciada no campo da arte contemporânea, além de passar pelo cinema, ligou-se também à poesia, teatro, música, artes visuais e à política e, embora sem obedecer completamente às leis do género cinematográfico, apresentou o seu trabalho como ficção e documentário. Sarah Maldoror é considerada uma pioneira do cinema africano, engajada nas lutas dos movimentos de libertação de várias nações do continente africano nas décadas de 1960 e 1970, em particular nos movimentos de libertação dos países africanos de língua portuguesa (Angola e Guiné-Bissau), assim como também se encontra próxima dos poetas do Caribe francófono (Césaire, Damas, Glissant), como refere o texto da exposição. A sua produção multifacetada afirma-se como fazendo parte de um cinema revolucionário, firmemente antirracista e irreverente.

Esta exposição é organizada pelo Palais de Tokyo, Paris, e pelas Galerias Municipais de Lisboa no âmbito da programação da Temporada Portugal-França 2022, com apoio de Institut Français, Instituto Camões e Gabinete de Estratégia, tendo sido apresentada no Palais de Tokyo em Paris, entre novembro de 2021 e março de 2022. No texto da exposição Palais de Tokyo acrescentam a informação que, no âmbito destas exposições sobre Sarah Maldoror: Tricontinental Cinema, foi também publicada uma revista gratuita editada por Cédric Fauq e François Piron e coordenada por Clément Raveu, que integra um acervo de documentos visuais e textuais reunidos ao longo da fase de pesquisa para a exposição, incluindo uma com as filhas de Maldoror, que ajudam a contextualizar e completar a biografia e filmografia de Sarah Maldoror.

Como já tinha sido publicado em janeiro no AbrilAbril, a 8.ª edição da Festa da Ilustração em Setúbal iniciou em Outubro em vários equipamentos culturais do concelho evocando a memória do escritor e editor João Paulo Cotrim (1965-2021), criador e curador da Festa da Ilustração. O português André Letria e o francês Alain Corbel, ilustradores que colaboraram com o homenageado, são outras das figuras em destaque, com exposições na Casa da Cultura[fn]Casa da Cultura – R. Detrás da Guarda 28, 2900-347 Setúbal. Horário: terça a sábado, 10h-24h; domingo, 10h-22h.[/fn], que podem vistas até 27 de novembro. A exposição «Se não lhe fizer falta», do homenageado João Paulo Cotrim, pode também ser visitada até 27 de novembro na Casa d’Avenida[fn]Casa d’Avenida – Av. Luísa Todi 286, 2900-452 Setúbal. Horário: segunda a sexta, 14h-18h; sábado 11h-13h; e domingo, 14h-18h.[/fn].

José Teófilo Duarte, curador da Festa da Ilustração, que é organizada pela Câmara Municipal de Setúbal em parceria com a DDLX – Design | Comunicação e a editora Abysmo, referiu que a aposta da Festa da Ilustração é ter «ilustração com atitude», acrescentando que «são ilustradores que têm atitude, têm opinião e têm uma dimensão internacional. E todos são tratados com a mesma importância. É um acontecimento único, que tanto a cidade como o país deviam adotar como seu».

Sobre Alain Corbel, refere-se no texto da exposição, a sua «forte ligação a Portugal, onde trabalhou para várias revistas e jornais», e desde 2000 a sua ligação também é forte com a «África de língua portuguesa». O ilustrador Alain Corbel recebeu o Prémio Nacional de Ilustração em 2002 com a obra Contos e Lendas de Macau, de Alice Vieira.

Já acerca de André Letria, assinala-se que se tem dedicado à ilustração desde 1992, vindo a publicar os seus trabalhos em livros infantis, jornais e revistas, fez cenografia para teatro e realizou filmes de animação. O ilustrador português André Letria ganhou o Prémio Gulbenkian e o Prémio Nacional de Ilustração e venceu dois prémios de ilustração, na Coreia do Sul e na China, com o livro A Guerra, escrito por José Jorge Letria e editado em 2018.

No âmbito da Festa da Ilustração, até 27 de novembro, podemos ainda ver em Setúbal as exposições «Levar à Letra» na Casa D’Avenida, com trabalhos «em que se explica como o significado dos textos é alterado pela forma como as letras são desenhadas»; a Exposição de «José de Lemos» na Galeria Municipal Do 11; a exposição de ilustradores locais «VER AO PERTO» na Casa do Largo. A exposição «NUVENS», de João Francisco Vilhena, no Museu De Setúbal/Convento De Jesus, vai poder ser visitada até 30 dezembro.

Continuando na área da ilustração, registamos a exposição «Vim de lá – Colagens de Memórias», da artista visual brasileira Paula Delecave[fn]Paula Delecave nasceu no Rio de Janeiro (1975) e reside em Lisboa. Utiliza a colagem como linguagem gráfica. Licenciada em Comunicação Visual na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Teatro na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), ambas no Rio de Janeiro, e pós-graduada em Livro Infantil, na Pontifícia Universidade Católica, Lisboa. Realiza regularmente oficinas de colagem (construção de livros de memórias), a partir do trabalho realizado no livro O Avô tem uma borracha na cabeça, para famílias e escolas em Portugal e no Rio de Janeiro.[/fn], que está exposta no foyer do Centro Cultural Malaposta[fn]Centro Cultural Malaposta – Rua Angola 2620-492 Olival Basto. Horário: terça a sábado, 14h30-18h.[/fn], em Olival Basto, Odivelas, até 2 de dezembro.

A ilustradora, designer e atriz Paula Delecave «reúne uma série de 32 colagens, feitas a partir de arquivos fotográficos familiares e de anónimos, evocando de forma humorada e surpreendente o tema das memórias», como nos diz o texto da exposição, acrescentado ainda que Paula é «uma espécie de guardiã das fotografias de família, esses traços da memória. Nesta exposição reúne novamente a fotomontagem e as memórias, mergulhando no baú das fotos e cadernos de família, recortes guardados há tempos, mas agora com outras lentes, despenteando os retratos para depois os remendar e recriar».

Acerca do «Vim de lá», que dá título à exposição, a ilustradora salientou, numa recente entrevista, que esta expressão foi retirada do samba «Alguém me Avisou», como homenagem a Dona Ivone Lara, referindo ainda que «vim de lá» do Rio de Janeiro, «vim de lá» de Trás-os-Montes, «vim de lá» da Galiza, «vim de lá» do Piauí (um dos estados no Nordeste do Brasil) e de outros tantos lugares» que fazem parte das suas origens. Dos seus trabalhos mais recentes, salientamos a ilustração do livro O Avô tem uma borracha na cabeça, em parceria com Rui Zink.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

 

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