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|Ciência

A luta dos bolseiros em Coimbra e o assédio na Academia

Não exagero se disser que todas as semanas nos chegam casos complicados de assédio praticados por orientadores ou directores de instituições de acolhimento, que abusam dos seus orientandos com pressões e recusas de pareceres essenciais a pedidos e necessidades do bolseiro, entre outras situações.

Na Universidade de Coimbra, a propina a pagar pelos estudantes internacionais é de 7 mil euros Créditos Manuel Botelho / CC BY-SA 4.0

Sou membro do Núcleo de Coimbra da ABIC e venho aqui trazer-vos a situação dos bolseiros e a luta desenvolvida na Universidade de Coimbra. Em Janeiro realizamos um plenário onde saíram quatro reivindicações, o fim das bolsas de investigação abertas pela Universidade de Coimbra, a melhoria das condições de trabalho dos doutorandos nos Centros de Investigação da UC, havendo inclusive centros onde não existe uma mesa para os doutorandos trabalharem, a transparência e a igualdade no destino dado às propinas de doutoramento e o fim do pagamento de propinas dos cursos não conferentes de grau sem componente lectiva.

Na sequência deste plenário, realizamos um abaixo-assinado que recolheu mais de 200 assinaturas entregues numa manifestação à porta da reitoria da Universidade em Maio. Com esta manifestação conseguimos pressionar o Reitor para uma reunião onde este se comprometeu a acabar ou reembolsar as propinas dos cursos não conferentes de grau sem componente lectiva e a contratar doutorandos assim que o Governo abrir concursos nesse sentido. Estamos agora a reunir com os Conselhos Pedagógicos das Unidades Orgânicas para discutir as restantes reivindicações. Prova-se assim que a unidade e a luta dos investigadores apresentam resultados e são o caminho.

«É a precariedade que nos subjuga a aceitar maus-tratos durante uma bolsa.»

Venho também dar notas de situações que nos chegam ao Apoio ao Bolseiro da ABIC e que se assemelham aos casos de assédio que já hoje aqui ouvimos. Não exagero se disser que todas as semanas nos chegam casos complicados de assédio praticados por orientadores ou directores de instituições de acolhimento, que abusam dos seus orientandos com pressões, recusas de pareceres essenciais a pedidos e necessidades do bolseiro, entre outras situações que muitas vezes espoletam inclusive graves doenças psicológicas em muitos dos nossos colegas. 

Em bolsas abertas por projectos, ainda por cima, os bolseiros estão ainda mais desprotegidos, estando obrigados a manter-se numa bolsa na instituição e com os orientadores acordados nas condições da abertura do concurso, podendo ter a sua bolsa terminada em caso de queixa de um incumprimento ou abuso por parte do orientador ou instituição. Isto leva a que colegas com este tipo de bolsa não se queixem de situações de assédio que atravessam.

Colegas, são os corajosos relatos e a luta como a que hoje aqui temos que verdadeiramente vão contra o assédio a que estamos sujeitos. É a precariedade que nos subjuga a aceitar maus-tratos durante uma bolsa. Com o fim das bolsas e a sua passagem a contratos, os investigadores não se encontram tão vulneráveis, mas sim mais seguros para exigir os direitos e o respeito que merecem.

Texto lido no dia 9 de Julho de 2025, na concentração «Em Defesa da Ciência Pública e pelo Fim da Precariedade na Ciência», realizada em frente à Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (NOVA SBE), em Carcavelos, onde decorreu o Encontro Ciência 2025.
O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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