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Explicador

Depois de atropelar a campanha eleitoral, Justiça adia decisão sobre caso Master

A menos de um mês para as eleições no Brasil, um comboio de escândalos de fraude financeira atravessou a campanha, mudando o rumo das discussões. Neste explicador, analisamos alguns pontos chaves para compreender o envolvimento de políticos e juízes.

Créditos Brenno Carvalho

Desde as primeiras notícias da prisão preventiva do banqueiro Daniel Vorcaro, em Novembro de 2025, a política brasileira tem estado estremecida. Figura principal no caso da fraude financeira do Banco Master, Vorcaro, que até então era pouco conhecido do grande público, revelou-se no centro de uma teia de relações íntimas e profissionais suspeitas com diversas figuras da política e justiça brasileira.

Operação Compliance Zero

Apesar de se tratar, aparentemente, de um banco pequeno, a fraude em torno do Banco Master é o maior rombo financeiro da história do Brasil. O esquema fraudulento, tornado público pela Operação Compliance Zero da Polícia Federal, consistia na emissão de títulos de crédito sem lastro que eram comercializados como activos financeiros legítimos de forma interna, mas também como parte de fundos de investimentos de outros bancos brasileiros.

Para além do prejuízo privado, o Banco Master envolveu entidades públicas no golpe. O Master operava um esquema paralelo de fraude contra os beneficiários da Segurança Social. Foram identificados cerca de 250 mil contratos irregulares de pensionistas que passaram a ter descontos indevidos (sem que os próprios tivessem conhecimento disso). Estima-se um desvio de 6 mil milhões.

A máxima «lucros privados, prejuízos públicos» é muito bem empregue no Banco Master, que, através destes esquemas, e já tendo consolidado o rombo financeiro que só seria paralisado no final de 2025, quase foi adquirido pelo BRB, o Banco de Brasília, em Março do mesmo ano. O anúncio da compra de 58% do Master por porta dessa instituição pública teria custado 2 mil milhões de reais (perto de 337 milhões de euros), tendo apenas sido barrada pelo Banco Central por risco de sucessão, quando há o receio do comprador herdar dívidas ocultas do vendedor.

A rede política de Vorcaro

Ao longo dos vários anos em que geriu esta operação fraudulenta, Daniel Vorcaro manteve uma extensa rede de contactos com políticos da república brasileira. Ainda que se conheçam algumas ligações a membros do Partido dos Trabalhadores, a rede de Vorcaro estava instalada nos políticos do chamado Centrão e da extrema-direita bolsonarista. Alguns nomes associados a suspeitas de irregularidade:

Cláudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro. A Polícia Federal registou encontros e trocas de mensagens entre Castro e Vorcaro antes de aportes milionários do fundo de previdência dos funcionários públicos do estado para o Banco Master. Num episódio citado nas investigações, Vorcaro convidou Castro para uma degustação de uísque em Nova Iorque, em Maio de 2024; no dia seguinte ao encontro, o fundo de previdência terá aplicado 80 milhões de reais (cerca de 13.46 milhões de euros) em títulos do banco.

Ibaneis Rocha, ex-governador do Distrito Federal. A troca de mensagens aponta-o como interlocutor directo de Vorcaro na tentativa de compra do Master pelo BRB – Banco de Brasília. O ex-governador admitiu os encontros, mas negou a existência de qualquer irregularidade.

Ciro Nogueira, senador. Há elevada proximidade entre os dois, com Vorcaro já tendo pago diversas estadias na Europa e realizado transferências mensais de até 500 mil reais (cerca de 84 mil euros) ao senador. Com apoio do também senador Jaques Wagner, Nogueira foi relator da chamada Emenda Master no Senado. A medida, que não passou na Câmara, ampliava o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de 250 mil para 1 milhão de reais para cada depositante, aumentando a garantia que cada investidor teria numa possível, e iminente, falência do Master.

Nikolas Ferreira, deputado federal. Mensagens e áudios do telemóvel do Vorcaro documentam um apoio logístico a Ferreira, principalmente através do usofruto de uma aeronave privada do banqueiro. Na campanha eleitoral de 2022, Vorcaro forneceu o jato privado que Ferreira usou durante 10 dias para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro pelo país.

Flávio Bolsonaro, senador e candidato à presidência. Vorcaro foi o financiador do filme Dark Horse, uma biografia sobre o seu pai encomendada pela sua família. Com indícios de desvio de verbas, o filme recebeu efectivamente 61 milhões de reais (mais de 10 milhões de euros), mas é conhecida a promessa de Vorcaro de contribuir com um total de 134 milhões. Entre valores prometidos e os de facto realizados, Dark Horse tem potencial para ser a produção cinematográfica mais cara da história do país. Além do patrocínio para o seu filme, Jair Bolsonaro também recebeu, em 2022, 2 milhões de reais para a sua campanha eleitoral. O valor, que é considerado o mais alto daquele pleito, foi feito através de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

Os contatos do Supremo Tribunal Federal

O telemóvel de Vorcaro também revelou contato com alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e é precisamente esta proximidade que agora abala a república e as eleições brasileiras. Até onde foi tornado público, pelo menos quatro ministros têm algum grau de contacto. Como o Caso Master está em julgamento no STF, este facto não pode ser visto como uma mera nota de rodapé. Entretanto, a divulgação selectiva de mensagens sequestraram toda a campanha eleitoral, estando a ser usados para manipular a opinião pública em favor e desfavor de candidatos. Os juízes visados são:

Ministro Dias Toffoli. Relator original do caso Master no STF, deixa a função quando a imprensa torna público que se encontrara presencialmente com Vorcaro dez vezes entre 2023 e 2024. Toffoli também é sócio de um empreendimento hoteleiro ao qual é possível traçar ligações financeiras a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

Ministro Kassio Nunes Marques. O juíz aparece em, pelo menos, duas conexões com o banqueiro. O seu filho, Kevin Nunes Marques, através da consultoria tributária em que trabalha, recebeu um pagamento de 280 mil reais. Além disso, trocas de mensagens sugerem que Vorcaro terá pago uma viagem para cinco pessoas a Viena e arredores a pedido do ministro.

Ministro Alexandre de Moraes. O telemóvel do banqueiro tinha um contacto guardado com o nome do ministro e a quem pedia ajuda para travar as investigações na Polícia Federal. Nas mensagens também são mencionados os nomes de Andrei Rodrigues, director da PF, e Paulo Gonet, PGR. Através da imprensa também se descobriu que o Master assinou um contrato de 131 milhões de reais (pouco mais de 22 milhões de euros) com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Ministro André Mendonça. Relator do caso Master após a desistência de Toffoli. Mendonça e Vorcaro encontram-se presencialmente na sede do Instituto Iter, propriedade do ministro. O encontro, confirmado pelo próprio, aconteceu um dia antes do início do julgamento dos efeitos da privatização dos cemitérios de São Paulo. Nos dias seguintes, Mendonça pede mais tempo para analisar o caso e suspende o julgamento. Quando o processo retoma, derruba uma decisão que impõe limites para os valores cobrados pelas concessionárias privadas. O ministro Flávio Dino destaca que havia «elevados interesses de fundos geridos pelo Banco Master exactamente em temas atinentes à privatização de cemitérios».

Ofuscamento das eleições

A despeito da enorme gravidade do caso Master e da promiscuidade dos poderes políticos e judiciais com o negócio do banqueiro, a condução de André Mendonça e o seu envolvimento pessoal levantam suspeitas do aproveitamento político que ele está a fazer do julgamento. Mendonça chega ao STF sob indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro e mantém-se fiel a esse campo político desde então.

No decorrer dos últimos dias, os ministros têm trocado acusações de envolvimento no caso, tentando proteger a própria imagem e denunciar a participação dos colegas. Culminando no evento inédito da semana passada, onde, justificando estar a ser pessoalmente investigado pela PF, Mendonça afasta Leandro Almada, director da Inteligência da PF e Andrei Rodrigues, director geral da PF e responsável pela prisão de Vorcaro.

Julgamento adiado por 90 dias

Ontem, 15 de Setembro, o tribunal reuniu-se então para tomar duas deliberações: a abertura de um julgamento para o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes; e a marcação conjunta, ou não, deste julgamento para a mesma sessão do caso Master, a partir do relatório de André Mendonça.

A sessão, acalorada, terminou com um pedido de mais tempo para analisar o processo e nenhuma decisão tomada. Entretanto, todos os ministros dispõem agora dos documentos do caso, após ter sido concedida uma quebra de sigilo. Assim, quando regressarem aos trabalhos (algo que só acontecerá bem depois das eleições), todos os juízes terão conhecimento do envolvimento dos colegas nos autos do processo.

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