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Mais-que-coisas

Sim, é preciso acordar a casa, desenhá-la «como quem embala um remorso». Lembramo-nos, resistimos, habitamos. Nós, com eles, todos nós, vivos.

Créditos Filipe Amorim / Agência Lusa

Acordei cedo no passado domingo, uma vez mais sobressaltado, a precisar de viajar de Coimbra a Penedono, a precisar de chegar à raiz de todas as relações, ao sítio inicial-sem-final, onde há castelo e castanheiros, paredes graníticas que escurecem e vidros limpos que deixam entrar a luz do sol, iluminando a passagem do tempo.

Duplo sobressalto, entretanto: há uma pulsão governamental de morte, liberal autoritária, desmemoriada, tão contrária a este dia dos mortos. E eles estão dentro de nós, entre nós, vivem em nós, nos nossos, seus, termos.

O dia 1 de novembro é um dia de memória, de cuidado, e logo de vida e da sua pulsão. Vai-se e, por uma vez, está-se: falo do cemitério, o sítio onde só se vai, dizia-nos Saramago. Está cheio de flores, um mar de cor, uma luta contra o tempo, contra o esquecimento.

Lembro-me de Walter Benjamin, em 1940, pouco antes de ter colocado fim à sua vida errante e perseguida: «nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer». E o inimigo venceu, foi derrotado e venceu de novo, mas não de forma irremediável.

«E este dia primeiro é sobre o princípio da habitação, toda uma luta, todo um princípio aonde se pode regressar sempre. Como disse Manuel António Pina: "come agora um pão primeiro/sem o sabor de palavras estrangeiras na boca".»

É possível derrotá-lo, uma vez mais, como se viu ainda há pouco na luta contra o pacote laboral. Nunca se desiste, mesmo que os escombros se amontoem, quando o anjo é arrastado e olha para trás, de costas voltadas para o futuro.

Não sei do anjo da história, mas olho e vejo trabalhadores, uma vez mais, a espancar trabalhadores, em cada vez maior escala, e ambos enfrentando a mesma questão da habitação. Neste dia, feito de gestos que se repetem, que têm de se repetir, devo de repetir uma frase que escrevi no blogue Ladrões de Bicicletas há mais de uma semana:

Perante a complacência do Presidente da República, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, este Governo tenta levar o neoliberalismo mais longe. Resistir-lhe é uma obrigação de qualquer pessoa honrada.

E este dia primeiro é sobre o princípio da habitação, toda uma luta, todo um princípio aonde se pode regressar sempre. Como disse Manuel António Pina: «come agora um pão primeiro/sem o sabor de palavras estrangeiras na boca».

Sim, temos todos um sabor de palavras amargas, dado por uma política governamental entreguista. E nós sabemos o que temos de fazer: da socialização da renda fundiária ao investimento público contínuo em habitação a preços acessíveis para a classe trabalhadora, passando pelos tetos às rendas, pelas limitações estritas ao alojamento local ou pelo fim das benesses fiscais regressivas aos inflacionados direitos de uma propriedade privada com deveres deflacionados, sobretudo à que esta cada vez mais concentrada.

«Perante a complacência do Presidente da República, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, este Governo tenta levar o neoliberalismo mais longe. Resistir-lhe é uma obrigação de qualquer pessoa honrada.»

Mais à frente, sempre no seu livro Como se desenha uma casa, num outro poema, diz-nos Pina, o portuense invicto: «Há em todas as coisas uma mais-que coisa/fitando-nos como se dissesse: 'Sou eu'/algo que já não está lá ou se perdeu/antes da coisa, e essa perda é a coisa».

E que alivio saber que há mais-que-coisas imperdíveis, por todo um país, sintetizadas numa nota do gabinete de imprensa do PCP e logo neste dia: «Exigindo-se o apuramento cabal das responsabilidades políticas da ação repressiva em curso, o que se impõe são soluções para os problemas, medidas que respondam aos problemas que atingem a vida da maioria do povo, designadamente o direito à habitação».

Sim, é preciso acordar a casa, desenhá-la «como quem embala um remorso». Lembramo-nos, resistimos, habitamos. Nós, com eles, todos nós, vivos.

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990(AO90)

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