É que, morando em Santiago do Escoural e trabalhando em Lisboa, precisamos de apanhar o comboio das 7h17 em Casa Branca. Sendo possuidor do Passe Ferroviário Verde, por 20 euros por mês tenho direito a fazer a viagem de ida e volta Casa Branca – Sete Rios.
Óptimo preço e, convenhamos, 1 hora e 15 minutos para chegar a Sete Rios não é muito tempo, há zonas dentro da Área Metropolitana de Lisboa onde se tarda mais a chegar a Sete Rios.
Em teoria, é melhor que óptimo, é bestial. Mas a realidade é um inferno, criado pelas retorcidas mentes de Pinto Luz e Luís Montenegro, no seu afã de concretizar a privatização da CP. Explico passo a passo:
1) O único serviço ferroviário Casa Branca – Lisboa que existe é o Intercidades, que exige marcação de lugar. Porque é que não há regional que não exige marcação de lugar? Porque o governo não quer! Também é verdade que a CP não tem comboios para satisfazer o aumento de procura provocado pelo Passe Ferroviário Verde (PFV), mas é preciso ter nota que a CP não tem comboios porque o Governo não quer – por exemplo, não quis impor o interesse público para desbloquear as providências cautelares que bloquearam os concursos de 2020 até este ano.
2) A marcação de lugar só se pode realizar 24 horas antes da partida do comboio. Do primeiro destino. Ora o comboio que faz a ligação em Casa Branca ao Évora-Lisboa sai de Beja às 6h23. Logo, às 6h23 do dia anterior pode-se marcar lugar no comboio das 7h17 de Casa Branca para Sete Rios. Porque é que a CP é a única empresa do mundo que quer vender bilhetes o mais tarde possível? Porque o Governo assim decidiu no momento da criação do PFV. Porquê? Para sabotar, como foi logo na altura alertado.
3) Como a CP faz o Intercidades com uma carruagem de primeira e duas de segunda (às vezes três), a procura quase que duplica a oferta. Logo, mesmo tentando às 6h23 há utentes que não conseguem comprar o bilhete. Porque é que a CP não coloca mais carruagens? Porque o Governo não quer! É verdade que não há carruagens suficientes para o aumento da procura, mas não há carruagens suficientes porque o Governo não quer! Desde logo, podia ter acompanhado a decisão de criar o PFV de uma orientação à CP para acelerar a modernização das carruagens ARCO, das quais ainda há 10 em estaleiro à espera que a modernização seja realizada. E porque estão em Estaleiro mais de 5 anos depois de terem sido compradas? Porque o Governo quer, nomeadamente porque não permite que a CP pague melhor ao seu pessoal oficinal e contrate os muitos trabalhadores em falta nas oficinas.
«Porque é que a CP não coloca mais carruagens? Porque o Governo não quer! É verdade que não há carruagens suficientes para o aumento da procura, mas não há carruagens suficientes porque o Governo não quer!»
4) Com sorte, este domingo, fui um dos contemplados com o direito a marcar bilhete para Lisboa para o comboio das 7h17 de segunda-feira. Mas ainda não posso fazer a festa. É que às 17h começa a janela de oportunidades para marcar o bilhete de regresso. Se não conseguir marcar para o das 17h tenho ainda uma última hipótese, a de reservar lugar no das 19h. Se nem isso conseguir, então o bilhete da manhã de nada me serve. Porque até podia voltar de autocarro para Montemor, mas se o carro ficou em Casa Branca (porque não há autocarros para Casa Branca), e o táxi de Montemor a Casa Branca são 26 euros...
5) Mais uma vez, admitindo ser um dos felizardos, e ter conseguido marcar lugar para regressar a Casa Branca às 17h ou 19h, na segunda-feira tenho comboio às 7h17 para Lisboa. Mas na segunda-feira o despertador toca a tempo de, às 6h23, ir tentar comprar o bilhete para terça-feira. Se não tiver sorte, será necessário ir de carro ou de autocarro, e os custos irão amontoando-se. Isto, todos os dias do ano!
O objectivo do Governo é claro: criar ódio à CP para facilitar a sua privatização. É por isso que recomendo a todos os utentes da ferrovia que colem no espelho da casa de banho as fotos de Luís Montenegro e Pinto Luz. Para todos os dias se relembrarem de quem são os criminosos que pariram esta sabotagem para facilitar a negociata que têm preparada: oferecer a exploração comercial aos amigos quando chegarem os comboios novos encomendados em 2020.
O aqui descrito para quem viaja do Escoural, vale para várias linhas deste país com ligeiras nuances. Isto não é incompetência! É sabotagem!
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