Inspirado pelos ventos do Instituto Mais Liberdade, organização apêndice da Iniciativa Liberal e da qual foi presidente, Fernando Alexandre aplicou a política motosserra no ministério da Educação. Como bom liberal, o responsável da tutela, a bem de uma suposta eficiência, cortou de 50% dos postos de trabalho da administração educativa e fundiu organismos.
Tal acção teve impactos nefastos na correcção dos Exames Nacionais, porém, de Fernando Alexandre não veio nenhuma autocrítica. Por requerimento do PCP, o ministro deslocou-se à Assembleia da República para dar explicações sobre o caos e o atraso na correcção dos exames que lesou os estudantes, mas também as suas famílias.
Se ao longo desta última semana o primeiro-ministro, assim como o líder da bancada parlamentar do PSD, culparam os professores por, alegadamente, terem oferecido resistência à transição digital e metodologia na correcção dos exames, da parte do ministro não houve nenhuma retratação.
Em explicações aos deputados, Fernando Alexandre ficou-se pela explicação do processo e na valorização do sistema de correcção e revisão de provas e nesta fase meteu a responsabilização no Júri Nacional de Exames que «tem as condições e a responsabilidade de enviar as notas às escolas hoje. A responsabilidade é do JNE», garantiu.
«Sobre a responsabilidade, houve erros, alguns já estão identificados, mas o que importa e foi o foco de toda a gente, milhares e milhares de pessoas, envolvendo mais de 11 000 classificadores, foi cumprir este prazo. Aquilo que o Governo fez, aquilo que eu fiz, foi estar completamente focado em cumprir este prazo», afirmou o ministro apesar dos prazos derraparem e hoje, dia 17 de Julho, data final para a afixação de resultados ainda não haver garantias que tal será cumprido.
Fernando Alexandre foi mais longe e garantiu que a segunda fase vai decorrer sem os problemas que aconteceram na primeira fase dos Exames Nacionais. Para tal, o ministro diz que os problemas estão identificados, ficando no ar a dúvida sobre o que significou, então, o teste-piloto que ocorreu no ano passado com o exame de filosofia e que, à semelhança do actual ano lectivo, foi um desastre.
Como não podia deixar de ser, numa táctica recorrente do Governo, Fernando Alexandre acabou por culpar o PS pelo estado da educação no país. Sendo certo que o ex-governo recusou resolver os problemas do sector, travando até uma guerra com os professores, o actual Governo agravou-os, porém, para o actual ministro, num momento de fugir às responsabilidades, qualquer argumento parece contar.
«A reforma que nós estamos a fazer garante um melhor sistema educativo com melhores resultados para os alunos e para as famílias, mas também para os nossos professores. Aliás, isso é reconhecido pelos professores», afirmou Fernando Alexandre ante todas as críticas dos estudantes, famílias e professores.
Esta, de resto, foi a única vez que o ministro falou durante a audição. Ardilosamente, Fernando Alexandre usou todo o seu tempo para não responder à oposição, nomeadamente ao PCP que o chamou ao Parlamento.
Importa referir que durante o debate foi bem visível a postura que diferencia os vários partidos. Logo à cabeça, o PCP foi contundente nas críticas, com Paula Santos a afirmar: «É inadmissível que perante a situação caótica nos exames, o Ministro e o Governo procurem sacudir as suas responsabilidades, procurando responsabilizar as escolas, os diretores, os professores e até as famílias».
O PCP, de resto, enumerou todas as falhas do processo, recordando os atrasos na entrega dos códigos aos professores, a convocação de professores aposentados, atrasos e erros na distribuição de exames, itens incompletos com folhas em falta, distribuição de itens já classificados, sobrecarga de trabalho dos docentes e a plataforma por onde passa todo o processo de correcção suspensa em diversos períodos.
«Isto é a prova provada que o Governo decidiu avançar com um procedimento experimentalista sem estar devidamente testado», apontaram os comunistas que considerou que todo o processo, o desmantelamento do ministério e o recurso ao outsourcing, «consequências do neoliberalismo, do Estado mínimo, da opção de um Estado sem instrumentos para intervir, refém dos interesses privados».
Já pelo Chega, talvez em reacção às mais recentes sondagens, houve uma postura de paciência, com André Ventura a apelar a que Fernando Alexandre não se demita para poder resolver todos os problemas na Educação. Apesar de algumas questões, simplesmente para cumprir calendário, André Ventura disse que não quer discutir demissões: «Queremos que fique aí a resolver os problemas», afirmou, dirigindo-se ao ministro da Educação.
O debate ficou marcado pela recusa de Fernando Alexandre em responder às questões colocadas. O bloquista Fabian Figueiredo pediu a Aguiar-Branco que este instasse Fernando Alexandre a responder ao que estava a ser colocado, porém, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, argumentou que o Governo gostaria que, primeiro, «todos os grupos parlamentares fizessem observações e queixas» para depois poder responder.
A verdade é que Fernando Alexandre não quis responder a nada e, mais uma vez, fugiu ao debate.
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