A resolução aprovada nos plenários, que envolveram cerca de 3000 trabalhadores, é clara na exigência: «Afirmamos de forma inequívoca a nossa rejeição a todo o tipo de chantagem que tem sido exercida por parte da administração, com o propósito de agravar as nossas condições de trabalho, através da pretensa alteração aos horários de trabalho».
Este documento foi aprovado massivamente, apenas com um voto contra e sete abstenções, e determina que se mantém a convocação da greve, que começará hoje às 23h30 e terminará às 24h de amanhã.
José Carlos Silva, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Ambiente do Sul (SITE Sul/ CGTP-IN) e trabalhador da empresa, lembra que esta posição foi afirmada em dois plenários realizados durante o Verão, num abaixo-assinado que contou com milhares de assinaturas e no referendo realizado no dia 18 de Julho, com o voto de 75% dos trabalhadores. O dirigente sindical, descrevendo o ambiente dos plenários realizados ontem, acredita que a greve terá «uma grande adesão».
«Os trabalhadores nunca se negaram, sempre que necessário, a fazer trabalho extraordinário ao sábado», lembra o sindicalista, mas o que está em causa na proposta que a administração procura impor é a obrigatoriedade de passar a trabalhar também neste dia.
Com o pretexto de dar resposta à fabricação do T-Roc, o novo veículo utilitário desportivo da Volkswagen, a administração quer que a fábrica passe a funcionar em 18 turnos, seis dias por semana, a partir de Fevereiro, e que os trabalhadores passem a laborar entre segunda-feira e sábado, com obrigatoriedade de trabalhar ao sábado, durante dois anos.
José Carlos Silva destaca «as consequências na vida pessoal e familiar» que esta alteração dos horários teriam para estes trabalhadores, com as implicações de laborar em regime de três turnos rotativos e apenas com dois dias de folga consecutivos de três em três semanas.
Há coisas que o dinheiro não paga
Os trabalhadores rejeitaram massivamente no referendo realizado a 28 de Julho a proposta da administração, que incluía uma compensação monetária acordada com a Comissão de Trabalhadores (CT). O SITE Sul também se manifestou contra, e não foi a primeira vez que é rejeitado um acordo entre a administração e a CT da Autoeuropa.
Apesar de os trabalhadores, na sua maioria, considerarem o acordo prejudicial, a CT continuou a defendê-lo, lembrando na altura, num comunicado, que a «necessidade de a fábrica trabalhar seis dias» enquadra-se no modelo existente para «fábricas de grande volume de produção», acrescentando que confirmara a sua «legalidade». A CT acabou por se demitir no seguimento da rejeição do seu pré-acordo por parte da maioria dos trabalhadores.
Para os trabalhadores, «o dinheiro não apaga o desgaste físico e a saúde que se perde, o tempo de ausência com a família, o direito ao descanso e ao lazer, ao desporto e à cultura, o direito a uma vida pessoal e familiar, com a qualidade a que temos direito, onde se inclui o fim-de-semana», refere a resolução aprovada ontem.
O dirigente do SITE Sul afirma que é possível «um diálogo para chegar a outras alternativas que não prejudiquem os trabalhadores» e que, consoante a resposta da administração, os trabalhadores discutirão novas acções, tendo ficado mandatada a comissão sindical para marcar novo plenário se não se verificar qualquer alteração.
«Os trabalhadores rejeitam as declarações por parte da administração sobre a possibilidade de deslocalização de partes da produção», sublinha ainda José Carlos Silva, considerando-as «lamentáveis» e uma pressão para impor estes horários. Lembra ainda que parte do investimento em causa foi suportado pelo governo português e que inclusivamente o novo modelo já está a ser construído.
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