A tradicional romaria partiu, este domingo, da Praça dos Heróis e passou frente ao Palácio de La Moneda, sede da presidência, mas sem poder entrar na Rua Morandé para homenagear Allende, uma vez que as forças de segurança cortaram todos os acessos.
«Passam agora 53 anos sobre o golpe, e as dívidas em torno da verdade e da justiça continuam por pagar. Há ainda mais de mil detidos desaparecidos», declarou Pablo Ruiz, responsável de comunicação da Coordenadora Nacional das Organizações Sociais e de Direitos Humanos, à Prensa Latina.
Questionado sobre o Plano Nacional de Busca das vítimas de desaparecimento forçado, denunciou que existe um pacto de silêncio generalizado e que muitos assassinos estão a morrer sem revelar a localização dos corpos.
Embora o golpe fascista contra o governo da Unidade Popular tenha ocorrido a 11 de Setembro, a peregrinação realiza-se todos os anos no fim-de-semana mais próximo dessa data, de modo que as pessoas possam participar, observou Ruiz.
«Nem perdão nem esquecimento», «Não aos indultos» foram alguns das palavras de ordem dos participantes na manifestação em Santiago, que condenaram também a tentativa do actual governo de conceder indultos a presos condenados por crimes contra a humanidade.
A marcha, que assinala o golpe de Estado e as recorda as suas vítimas, ficou marcada pelas críticas às políticas do executivo liderado por José Antonio Kast, com organizações de direitos humanos e representantes de espaços da memória a alertarem para os impactos dos anúncios de cortes no financiamento público de instituições que têm a seu cargo a preservação da memória histórica e a reparação.
Alerta para os retrocessos
Alicia Lira, recentemente galardoada com o Prémio Nacional de Direitos Humanos, disse à Prensa Latina que a marcha não se dirige exclusivamente às vítimas e às suas famílias, mas a toda a sociedade, porque ainda não houve reparação.
Agradeceu à Frente Ampla, ao Partido Comunista e ao Partido Socialista, que também fizeram parte da organização desta romaria.
Por seu lado, a presidente da Associação de Familiares de Executados Políticos alertou para os retrocessos que se têm vindo a verificar sob o actual governo em matéria de direitos humanos, laborais e ambientais.
Acrescentou que, além da ameaça de perdão para os responsáveis pela repressão durante a ditadura, existe também a ameaça de amnistia para os autores de crimes cometidos durante a revolta social.
«Não permitiremos a amnistia para aqueles que assassinaram e causaram lesões oculares em centenas de pessoas», declarou.
A marcha decorreu de forma pacífica, no geral; à entrada do Cemitério Geral, os Carabineiros usaram canhões de água e gás lacrimogéneo contra alguns manifestantes, que lançaram pedras e artefactos pirotécnicos.
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