|Manuel Gouveia

Os pactos que antecederam a II Guerra Mundial

Conhecer a história da II Grande Guerra Mundial continua a ser muito importante, e para isso é preciso afastar o denso nevoeiro de mentiras e caricaturas colocado sobre ela. E pode ser decisivo para impedir que a mesma loucura volte a prevalecer na Europa e no Mundo.

Créditos / saint-petersburg.com

A Embaixadora do Canadá na Rússia dirigiu-se, na semana passada, ao Cemitério Piskaryovskoye para deixar, não uma homenagem, mas uma calúnia, «A nossa melhor oferta aos mortos é a verdade – recordando tanto o heroísmo como o sofrimento de Leninegrado, os resultados de Molotov-Ribbentrop e de Ialta – para que aprendamos com a história em vez de a distorcermos para os nossos objectivos actuais.» Teve a imediata e justa resposta de Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia: «Ela pode precisar de um lembrete de que o verdadeiro ponto de partida dos acontecimentos que levaram à Segunda Guerra Mundial foi o Acordo de Munique, assinado com a participação da Grã-Bretanha, a principal potência da Comunidade Britânica a que o Canadá pertence. Quando se trata de compreender a causa e o efeito históricos – particularmente as verdadeiras origens da Segunda Guerra Mundial – o Canadá e grande parte do Ocidente sofrem de um caso crónico de amnésia selectiva.»

Era o mínimo que a Sra. Embaixadora merecia. Mas Maria Zakharova limitou-se a dar a resposta curta aos que referem o Pacto Ribbentrop-Molotov de 1939 como o início da guerra: recordar-lhes o Pacto de Munique, de 1938, que o antecedeu, e onde a França e o Reino Unido entregaram a Checoslováquia à Alemanha e lhe apontaram o caminho da URSS.

Mas – e falando só de pactos – o caminho que levaria à Segunda Guerra Mundial é bem mais vasto. Que quase ninguém os conheça, faz parte dessa amnésia selectiva de que fala Maria Zakharova.  

Falando apenas no período que se segue à ascensão do Partido Nazi ao poder na Alemanha (durante 1933, com o financiamentos do grande capital, o apoio da direita alemã, a passividade da social-democracia e a oposição do glorioso e combativo KPD de Ernst Thälmann, o Partido Comunista da Alemanha1):

– A 14 de Julho de 1933 é assinado um pacto entre a Alemanha, a Itália, o Reino Unido e a França, que ficou conhecido como o Pacto das Quatro Potências.

– A 26 de Janeiro de 1934 é assinado o Pacto de Não Agressão Germano-Polaco.

– A 5 de Maio de 1934 é prolongado até 1945 o Pacto de Não Agressão Soviético-Polaco de 1932.

– A 2 de Maio de 1935 é assinado o Tratado de Assistência Mútua Franco-Soviético.

– A 18 de Junho de 1935 é assinado o  Acordo Naval Anglo-Germânico, um pacto que esteve em vigor até 28 de Abril de 1939.

– Em Agosto de 1936 é assinado o Acordo de Não-Intervenção na Guerra Civil Espanhola, uma iniciativa que partiu da Inglaterra e da França, e envolveu a Alemanha, a Itália, Portugal, a União Soviética e outros 21 países. Um acordo que nunca foi cumprido pela Alemanha, a Itália e Portugal, mas serviu de desculpa para travar quase toda a ajuda ao governo legítimo de Espanha (a quem apenas a URSS e o México enviaram apoio económico e militar). 

– A 25 de Novembro de 1936 foi assinado o pacto que definiu as potências do Eixo (juridicamente, a parte derrotada na Segunda Guerra Mundial). Foi o Pacto Anti-Komintern2, inicialmente integrado pela Alemanha e o Japão, mas depois alargado à Itália (1937), à Hungria (1939), à Espanha (1939), à República da Manchúria (1939), à Finlândia (1941), à Roménia (1941), à Bulgária (1941), à Eslováquia (1941), à China (1941), à Dinamarca (1941) e à Croácia (1941). Em 1940 seria prolongado com o Pacto Tripartido.

– A 29/30 de Setembro de 1938 é assinado o Pacto de Munique, entre a Alemanha, a Itália, o Reino Unido e a França. Nele, uma parte da Checoslováquia era entregue à Alemanha. 

– A 22 de Março de 1939 é assinado o pacto de não agressão entre a Lituânia e a Alemanha no qual a Lituânia também cedia uma parte do seu território à Alemanha.

– A 23 de Março é assinado o Tratado Germano-Romeno, que, para todos os efeitos, colocava a Roménia como uma colónia alemã.

– A 7 de Junho de 1939 é assinado o pacto de não-agressão entre a Alemanha e a Estónia, e entre a Alemanha e a Letónia

– A 24 de Agosto de 1939 é assinado o pacto de não-agressão entre a Alemanha e a URSS.

Isto, só para falar de tratados e pactos assinados entre a ascensão ao poder do Partido Nazi e o início da II Guerra Mundial, numa lista de forma alguma exaustiva. 

Depois, temos aqueles que foram propostos mas nunca foram assinados, e que não deixam de ter relevância política e histórica, ou podem ter até ainda mais relevância, com destaque para o Pacto anti-fascista que a URSS propôs à França e ao Reino Unido durante os anos de 1938 e 1939, dando sequência ao vasto conjunto de iniciativas soviéticas para tentar travar o caminho do expansionismo e rearmamento de uma Alemanha controlada pelos nazis. Um caminho que a França e o Reino Unido nunca quiseram seguir, nunca tendo aceite assinar os pactos propostos pela URSS, tal como está profusamente documentado na publicada correspondência entre Stalin e os líderes da França e do Reino Unido.

«Depois, temos aqueles que foram propostos mas nunca foram assinados, e que não deixam de ter relevância política e histórica, ou podem ter até ainda mais relevância, com destaque para o Pacto anti-fascista que a URSS propôs à França e ao Reino Unido durante os anos de 1938 e 1939 (...).»

A II Guerra Mundial é resultado das mesmas contradições inter-imperialistas que já tinham levado o planeta à I Guerra Mundial, para além do facto novo da existência de um poderoso Estado não capitalista, socialista, a URSS. As velhas lutas das velhas potências pelo domínio do mundo, com a nova necessidade de derrotarem o novo. E com esse novo a conseguir construir um caminho que evitou o seu isolamento e esmagamento, e antes criou as condições para a vitória anti-fascista, e para todos os avanços que marcaram a segunda metade do século XX, com destaque para os processos de descolonização e para o avanço dos direitos dos trabalhadores e das camadas populares. 

Um novo que não foi apenas esse Estado não capitalista, a URSS, mas o extraordinário conjunto de forças populares – a maioria dirigida por Partidos Comunistas – que se organizaram para participar no combate, mesmo nos países cujas classes dominantes alinharam com ou se submeteram à Alemanha Nazi. Falamos dos Partigianos Italianos, dos Maquis de França, dos Partizan Jugoslavos, do Exército de Libertação do Povo Grego, e assim no Chipre, na Albânia, na Coreia, na China e um pouco por todo o mundo. Sem esquecer Portugal, onde a luta entre comunistas e fascistas marcou todos os anos da guerra, com a reorganização do PCP a acontecer em 1941.

Conhecer a história da II Grande Guerra Mundial continua a ser muito importante, e para isso é preciso afastar o denso nevoeiro de mentiras e caricaturas colocado sobre ela. E pode ser decisivo para impedir que a mesma loucura volte a prevalecer na Europa e no Mundo. Além disso, é uma oportunidade única. Ninguém fará a história da III Guerra Mundial. Trabalhemos para que seja porque ela nunca se inicie. 

  • 1. A Wikipédia, no seu texto sobre a ascensão do nazismo ao poder, já deixa espaço para a calúnia nazi de que foram os comunistas que pegaram fogo ao Reichstag, e alude à ilegalização de todos os partidos menos do Partido Comunista, o maior e mais bem organizado Partido da Alemanha, e o primeiro a ser ilegalizado pelos nazis.
  • 2. Komintern – A Internacional Comunista

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