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Rendimento e condições de vida: um país desigual

As Estatísticas de Rendimento e Condições de Vida divulgadas recentemente pelo INE são um instrumento essencial para conhecer realidades sociais como a pobreza, a exclusão social e as desigualdades.
Créditos / Towards Data Science, a partir de Oxfam

O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou recentemente as Estatísticas de Rendimento e Condições de Vida, um instrumento essencial para conhecer realidades sociais como a pobreza, a exclusão social e as desigualdades. Os dados têm como referência principal o ano de 2019, pelo que não conhecemos ainda, para todos os indicadores, o efeito da crise pandémica. Mas o INE, tendo certamente em conta a crise sanitária, divulgou na mesma publicação, dados relativos ao estado de saúde e ao acesso aos serviços de saúde.

A impressão geral colhida da leitura desta informação é a de um país que, sem deixar de fazer progressos, manteve um nível de pobreza elevado e desigualdades sociais profundas. A informação publicada, ou disponibilizada no sítio do INE, é extensa, complexa e passível de várias leituras, pelo que nos limitamos a três dos aspectos que consideramos mais significativos.

O primeiro respeita à diminuição da população pobre ou excluída (ou, em termos formais, em risco de pobreza ou de exclusão social). Este indicador combina a pobreza monetária (digamos, de modo simplificado, os que vivem com um rendimento inferior a 540 euros, o limiar de pobreza de 2019) com o não dispor de um certo conjunto de bens (por exemplo, não poder ter a casa convenientemente aquecida) e com a pertença a famílias com uma relação ténue com o mercado de trabalho.

Mais de dois milhões de pessoas continuam a viver nestas circunstâncias (uma em cada cinco). É muito, até porque muitos dos pobres são muito pobres – os seus rendimentos estão claramente abaixo do limiar de pobreza. Apesar disso, se olharmos para a evolução no decurso de uma década (gráfico) constatamos que houve mais de 800 mil pessoas que deixaram de ser pobres ou excluídos comparativamente a 2013. Deviam reflectir sobre estes números aqueles que pensam que teremos de pagar com austeridade e dor uma dívida pública agravada com a pandemia.

O segundo refere-se a uma pobreza laboral alta (compreendendo-se aqui a pobreza dos desempregados e a dos empregados) e a um valor líquido do salário mínimo que está próximo do limiar de pobreza. A pobreza dos desempregados manteve-se acima dos 40% em 2019, embora seja de assinalar uma descida significativa face aos 47,5% do ano anterior. Uma descida cuja magnitude pode surpreender, até porque em 2019 o valor médio mensal das prestações de desemprego (498 euros) foi inferior ao valor de 2018 (511 euros). Trata-se, porém, de indicadores diferentes.

A pobreza laboral reduziu-se de 10,8% em 2018 para 9,6% em 2019. Manteve-se, no entanto, em valores na vizinhança de 10% em toda a década passada. Com um salário mínimo de 600 euros nesse ano, vem-nos que, retirado o que o trabalhador paga de contribuições para a Segurança Social, sobra 534 euros. É apressado concluir que o salário mínimo é inferior ao limiar de pobreza porque este é calculado considerando 12 pagamentos enquanto o salário mínimo é pago 14 vezes, contabilizando os subsídios de férias e de Natal. Ainda assim, existe uma proximidade que é reveladora da insuficiência do salário mínimo para assegurar condições de vida dignas.

O terceiro aspecto que se salienta respeita aos indicadores de desigualdades na saúde, divulgados pelo INE, a que juntámos as condições de habitação. A distribuição de três indicadores relevantes do estado de saúde (a autoapreciação do estado de saúde, a morbilidade crónica e a limitação na realização de actividades diárias por motivos de saúde) por níveis de escolaridade revela a profundidade das desigualdades existentes. Enquanto, por exemplo, a incidência da morbilidade crónica nas pessoas sem um nível de escolaridade completo atinge 81% (52% no Ensino Básico) é muito menor no Ensino Superior.

Estado de saúde, % (2020)
  Total Nenhum Básico Secundário Superior
Estado de saúde: bom ou muito bom 51,3 10,1 36,5 69,8 75,5
Morbilidade crónica 43,2 80,6 51,6 29,2 29,9
Limitação na realização de actividades 32,1 76,2 41,1 17,1 17,1

Por sua vez, a desigualdade nas condições de habitação é ilustrada com o recurso a três indicadores também relevantes. Considerando pobres as pessoas do primeiro quintil, isto é, as que se classificam nos 20% com menor rendimento, constatamos que: vivem em espaços sobrelotados; uma em cada cinco famílias gasta mais de 40% do rendimento disponível em despesas com habitação; 10% das famílias vive em condições severas de habitação onde a sobrelotação se conjuga com outros elementos de privação habitacional (a falta de instalações sanitárias, por exemplo). Esta situação contrasta vivamente com as condições de habitação nos 20% de maior rendimento. Um país desigual, em suma.

Indicadores de habitação, 2019 (%)
  Total 1º quintil 2º quintil 3º quintil 4º quintil 5º quintil
Sobrelotação 9,5 18,0 11,9 9,5 5,5 2,5
Sobrecarga de despesas 5,7 20,7 5,1 2,1 0,6 0,3
Privação severa 4,1 10,1 4,5 3,8 1,4 0,7

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